Estudo sobre o caso de Saul e a pitonisa de En-dor
7. En-Dor há muito estava relacionada na memória do povo judeu com a grande vitória de Débora e Baraque sobre Sísera e Jabim. A distância entre os declives de Gilboa e En-Dor é de 11,26kms a 12,87 kms, de solo difícil. No árido declive de Jebel Duhy ao norte (o Pequeno Hermom), o nome ainda subsiste, vinculado a uma vila de tamanho considerável, mas hoje deserta. A rocha desta vila, nas montanhas, está cheia de cavernas, uma das quais contém uma pequena fonte e pode muito bem ter sido o cenário da feitiçaria.
8. Foi . . . de noite. Era uma perigosa viagem de 11 a 12kms, parte da qual contornava o acampamento dos filisteus.
11. A questão se a mulher realmente possuía o poder de se comunicar com os espíritos dos mortos, ou se ela iludia-se possuí-lo, ou se era simplesmente uma impostora declarada, diferentes autores respondem de diferentes maneiras. Que o espírito de Samuel realmente apareceu era o ponto de vista dos antigos rabis. Isto se comprova pela tradução da LXX em I Cr. 10:13b – "E Samuel, o profeta, respondeulhe"; e em Eclesiástico 46:20. O mesmo ponto de vista era defendido por Justino Mártir, Orígenes e Agostinho. Tertuliano e Jerônimo defendiam que a aparição de Samuel foi uma ilusão diabólica.
12. Tu mesmo és Saul. A mulher, ou por causa da aparição de Samuel, ou pela intensificação de sua clarividência, reconheceu que fora Saul que buscara o seu auxílio. É difícil compreender por que ela não reconheceu imediatamente o mais alto de todos os israelitas. Talvez as trevas o escondessem dela.
15. Por que me inquietaste. Os mais modernos comentaristas ortodoxos são quase unânimes em concordar que o profeta falecido realmente apareceu e anunciou a próxima destruição de Saul e seu exército. Eles defendem, contudo, que Samuel foi trazido não pelas afies mágicas da feitiçaria, mas por meio de um milagre realizado pela onipotência de Deus. A ortodoxia antiga considerava este aparecimento como um fantasma, uma aparição ou uma ilusão.
A mediunidade é pecado gravíssimo, condenado pela Bíblia de ponta a ponta, e é castigada com a pena máxima, pena de morte
(Lv 20.27; Dt 18.10-12; At 16.18; Ap 21.8).
Dizer que Deus permitiu o aparecimento de Samuel mediante a pitonisa (11), é afirmar que Deus permitiu a Samuel pecar gravemente, Samuel era morto (ver 25.1).
Consultar os "mortos", ou os, falsos mortos, é pecado igual ao de feitiçaria e ao de idolatria (15.23a). É pecado cuja prática Deus não permitiu a ninguém, absolutamente a ninguém, e muito menos a Samuel, que era o segundo dos profetas, quanto à importância, depois de Moisés no A.T. (Jr 15.1).
A crônica de 7-25 fora escrita por uma testemunha ocular: logo, por um dos servos de Saul que o acompanhara à necromante (7, 8).
Frequentemente, esses servos eram estrangeiros (21.7; 26.6; 2 Sm 23.25-39) e quase sempre supersticiosos, crentes no erro (7) - razão por que o seu estilo é tão convincente.
Esta crônica, que é parte da história de Israel, pela determinação divina, entrou no Cânon Sagrado. E deve estar lá, como lá estão os discursos dos amigos de Jó (42.7),
as afirmações do autor de "debaixo do sol" (Ec 3.19; 5.18; 9.7, 9, 10; etc.), a fala da mulher de Tecoa (2 Sm 14.2-21), etc. -palavras e conceitos humanos.
(Infelizmente, esta crônica é interpretada por muitos sob o mesmo ponto de vista do servo de Saul).
Analisando-se o caso, não negamos a sinceridade da mulher (11-14): também a moça de At 16.16-18 foi sincera. Nem tão pouco recorremos à interpretação parapsicológica (que é possível), mas diretamente à Bíblia que, em si mesma, tem os argumentos necessários, para desmentir as afirmações do servo de Saul.
Antes, porém, vejamos a palavra médium (6, heb ob), que é traduzida em outras versões por "espírito adivinhador", ou "espírito familiar" e no texto grego (LXX) por (engastrimuthos) "ventríloquo" (um de fala diferente), palavra que indica a espécie de pessoa usada por um desses "espíritos".
1) Argumento Gramatical (6)... o Senhor... não lhe respondeu. O verbo hebraico é completo e categórico. Na situação presente de Saul, Deus não lhe respondeu, não lhe responde e não lhe responderá nunca. O fato é confirmado pela frase: "...Saul... interrogara e consultara uma necromante e não ao Senhor...". (1 Cr 10.13-14).
2 Argumento Exegético: (6): Nem por Urim - revelação sacerdotal (ver 14.18) ; nem por sonhos - revelação pessoal; nem por profetas - revelação inspiracional da parte de Deus. Fosse Samuel o veículo transmissor, seria o próprio Deus respondendo, pois Samuel não podia falar senão pela inspiração. E, se não foi o Senhor quem falou, não foi Samuel.
3) Argumento Ontológico: Deus se identifica como Deus dos vivos: de Abraão, de Isaque, de Jacó, etc. (Êx 3.15; Mt 22.32). Nenhum deles perdeu a sua personalidade, integridade, ou superego. Seria Samuel o único a poluir-se, indo contra a natureza do seu ser, contra Deus (6) e contra a doutrina que ele mesmo pregara (15.23), quando em vida nunca o fez? Impossível.
4) Argumento Escatológico: O pecado de Samuel tornar-se-ia mais grave ainda, por ter ele estado no "seio de Abraão" e tendo recebido uma revelação superior e um conhecimento mais exato das coisas encobertas, e, por não tê-las considerado, nem obedecido às ordens de Deus (Lc 16.27-31). Mas Samuel nunca desobedeceu a Deus (12.3-4).
5) Argumento Doutrinário: Consultar os "espíritos familiares" é condenado pela Bíblia inteira: (ver 28.3). Fossem os espíritos de pessoas, e Deus teria regulamentado a matéria, mas como não são, Deus o proibiu. Aceitando a profecia do pseudo-Samuel, cria-se uma nova doutrina, que é a revelação divina mediante Pessoas ímpias e polutas. E nesse caso, para serem aceitas as afirmações proféticas, como verdades divinas é necessário que sejam de absoluta precisão; o que não acontece no caso presente (Vejam como são precisas as profecias a respeito de Cristo: Zc 9.9 e Jo 12.15; Sl 22.18 e Jo 19.24; Sl 69.21 e Jo 19.28-29; Êx 12.46; Nm 9.12; Sl 34.20 e Jo 19.36; Zc 12.10; Jo 19.37; etc.).
6) Argumento profético (Dt 18.22): As profecias devem ser julgadas (1 Co 14.29). E essas, do pseudo-Samuel, não resistem ao exame. São ambíguas e imprecisas, justamente como as dos oráculos sibilinos e délficos.
Vejamos:
a) Saul não foi entregue nas mãos dos filisteus (28.19): A profecia é de estilo sibilino e sugeria que Saul viria a ser supliciado pelos filisteus.
Mas o fato é que Saul se suicidou (31.4), e, veio parar nas mãos dos homens de Jabes-Gileade (31.11-13).
Saul apenas passou pelas mãos dos filisteus. Infelizmente, o pseudo-Samuel não podia prever esse detalhe. (Vejam como são precisos os detalhes acima a respeito da pessoa de Cristo).
b) Não morreram todos os filhos de Saul ("... tu e teus filhos", 28.19) , como insinua essa outra profecia obscura:
Ficaram vivos pelo menos três filhos de Saul: Is-Bosete (2 Sm 2.8-10), Armoni e Mefibosete (2 Sm 21.8).
Apenas três morreram, como indicam clara e objetivamente as passagens seguintes: 1 Sm 31.2, 6 e 1 Cr 10.2,
6. c) Saul não morreu no dia seguinte ("... amanhã... estareis comigo", 28.19): Esta é uma profecia do tipo délfico, ambígua.
Saul morreu cerca de dezoito dias depois (ver notas de 30.1, 10, 13, 17; 2 Sm 1.3).
Citar em sua defesa Gn 30.33 e Êx 13.14 e afirmar que a palavra hebraica mahar, "amanhã", aqui, é de sentido indefinido, é torcer o hebraico e a sua exegese, pois todos vão morrer, mesmo, em "algum dia" no futuro; isto não é novidade.
d) Saul não foi para o mesmo lugar de Samuel ("... estareis comigo", 28.19).
Outra profecia délfica. Interpretar o "comigo" por simples "além" (sheol), é tergiversar. Samuel estava no "seio de Abraão", sentia isso e sabia da diferença que existia entre um salvo e um perdido.
Jesus também o sabia, e não disse ao ladrão na cruz, " ...hoje estarás comigo no "além" (sheol), mas sim, no "Paraíso".
Logo, Samuel não podia ter dito a Saul, que este estaria no mesmo lugar que ele: no "seio de Abraão". Se Samuel tivesse desobedecido a Deus (28.16-19), passaria para o inferno, para estar com Saul?
Ou então, Saul, ainda que transgredindo a palavra de Deus e consultando à necromante (1 Cr 10.13), passou para o Paraíso, para estar com Samuel? Inacreditável.
Quem respondeu a Saul? Sugerimos a seguinte possível explicação:
A Bíblia fala de certos "espíritos", sua natureza e seu poder (Êx 7.11, 22; 8.7; At 16.16-18; 2 Co 11.14-15; Ef 6.12). São os anjos maus.
Do mesmo modo fala de anjos que acampam ao nosso redor e nos guardam (Sl 34.7; Mt 18.10; Lc 15.10; etc.). São os anjos bons.
São dois, os "secretários" (senão mais) que nos acompanham durante a vida toda; um bom e outro mau. Anotam tudo e sabem tudo a nosso respeito.
Depois da morte, o anjo bom leva o nosso livro-relatório, diante de Deus, pelo qual seremos julgados (Ap 20.12).
Por sua vez, o anjo mau assume a nossa identidade e representa-nos no mundo, através dos médiuns. Onde revela o nosso relatório com acerto e "autoridade".
É por isso que Paulo fala da luta que temos contra "as forças espirituais do mal" (Ef 6.12).
E é pela mesma razão que Deus proíbe consultas aos "mortos" (Is 8.19, 20), porque estes são falsos (Dt 18.10-14).
Caso fossem espíritos humanos, provavelmente, Deus não proibiria a sua consulta, apenas regulamentaria o assunto para evitar abusos.
Deus, porém, proíbe o que é dissimulação e falsidade.
Blogger:
Carlos Rodrigues dos Santos,
Casado pai de família e evangélico desde a infância;
Bacharel em Engenharia Elétrica pela UNESA,
no estado do Rio de Janeiro, RJ.
Professor de escola bíblica desde 2006,
ministrando na ICNV, no bairro de Sepetiba, RJ.
Criador de conteúdo digital focado em assuntos teológicos,
aplicados a vida cristã, sendo um deles, o Estúdio EBD,
idealizado durante o curso de formação teológica
no Instituto Betel Brasileiro.
Santa Cruz, Rio de Janeiro, RJ.
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